domingo, 19 de outubro de 2008

QUINZE PRINCÍPIOS PORTUGUESES - 12

C – FUTUROS
12 – Das Buscas – São as bibliotecas, no melhor dos casos, repositórios do que se sabe e por isso quase sempre, ao passar entre as grandes estantes, o que desce sobre nós é a angústia, o silêncio e a inexplicação dos cemitérios. Talvez fosse bom pensar-se em bibliotecas de outro tipo, nas quais se tratasse do que se não sabe ainda; bibliotecas e museus da ignorância humana. Aí se ocupariam os bibliotecários não de cada vez com a maior perfeição e mais apurado bom gosto e comodidade adornar e catalogar e dispor racionalmente suas sepulturas, mas de concitar por seus mágicos meios as almas do que ainda não nasceu, em lugar de sentirem envolvê-los a melancolia de saberem, mesmo quando o não dizem, que consiste seu ofício em cuidar, como nos cemitérios de homens, do que, vivo, foi indispensável e, morto, empacha. Livro, afinal, é um esqueleto de autor; com a possibilidade de os termos todos, pelos sistemas actuais ou próximos futuros de comunicação, ao alcance de leitura, talvez fosse bom reduzirem-se as bibliotecas a um mínimo e cremar todo o resto, para dar lugar às mostras do que se não sabe.
Escola, também, desde as infantil às de pós-graduação, se deve fazer à volta do que se ignora, ou ao nível individual do aluno, que tem de descobrir para aprender, ou ao nível colectivo todo virado para a pesquisa, que pode ser e é na maior parte das vezes simples meditação, porque o resto que se chama pesquisa é, quando muito, consulta ou encontro; todo virado para a pesquisa e bem desprezativo do ensino. E, se tudo isto é verdadeiro para a totalidade dos povos, mais agudo sentido atinge para Portugal, tanto o pequeno como o dos Sete Mares, porque, simbolicamente, foi a sua primeira grande época a dos Descobrimentos, que não estavam em nenhum livro e ninguém sabia de cor e ninguém punha como ponto de prova ou batalha de banca.
Cabe-lhe descobrir de novo, e no muito mais difícil do que litoral fixo em ladeza e altura; cabe-lhe ir ao encontro não da natureza que já é, e que o seu filósofo de Holanda matou em princípio passado, mas da outra natureza que pôs ele para sempre viva num particípio que só é realmente presente para um Deus sempre e, por sua iluminação, para os gramáticos; para nós, enquanto não subirmos ao Divino, irremediavelmente passado ou futuro. É esta fugidia praia a verdadeira costa portuguesa e nela a Ninfa espera o seu Herói para o coroar de eterno.
Agostinho da Silva – Dispersos
* In Espiral, Ano II, n.ºs 8-9, Inverno de 1965.

QUINZE PRINCÍPIOS PORTUGUESES - 11

C – FUTUROS
11 – Das Ofertas – De queda em queda se chegou a entrar nos templos apenas para pedir, quando o acto real deveria ter sido sempre o de oferecer; Portugal não tem de entrar em mais sagrado algum dos seu, catedral, mesquita, terreiro ou templo, que em qualquer deles nosso Deus novo e redimido está, sem que sua carga seja de ofertas não de preces, sem que seus carros carreiem frutos de terra e mar, como a melhor das orações e o mais grato dos louvores à glória divina. Outrora se marcou a Terra Prometida porque emanavam de seus campos leite e mel e não há terra nenhuma de Deus aos homens que não possa ter consigo a mesma promessa e a mesma realização.
Mas à terra temos tratado como se escrava fosse, não como a companheira livre que, fecundada, à força de criar liberta e à liberdade lança, no futuro, o ser recente. Perdeu-se a lembrança do tempo em que os homens de Portugal aravam as terras que de ninguém eram e nunca houve tempo que permitisse que as tarefas comuns de manufactura também de todos fossem. Outro mundo inventou e organizou o ser só de um o que de comum era, por ser de Deus; e veio esse mundo e nos conquistou e nos fez, além de miseráveis em nossa própria casa, os que tantas vezes foram a outros povos não como irmãos, como, porém, a escravos. Outro mundo, mais recente mundo, não deu o comum aos homens, mas os homens ao comum. Cabe-nos agora, que teremos Rei, Templo que o coroe e Braços que o sustenham, ir ao mundo que ficou para além desses e lhe ensinar, pelo que tivermos feito, que nem é boa a propriedade de um nem a propriedade de todos, porque ser dono é o começo de todas as perdições. Tudo aí está para que sejamos; sejamos o quê? O ser apenas, sem predicado.
Creio, entre outras verdades, na verdade eterna do Evangelho e estou seguro que nem a exortação nem a promessa foram vãs: um dia poderá o homem, já nem escravo de si mesmo, adorar Deus em espírito e verdade, sem separação, sem trabalho, e sem morte. Não se irá, porém, por nenhum dos dois caminhos que actualmente se trilham, duas formas de capitalismo, e cada vez mais próximas, e cada vez mais visivelmente portadoras de guerra; só a cooperativização dos meios de produção, crédito e transporte poderá fazer o que não fez nem o seu abandono aos caprichos individuais nem a sua apropriação pelo Estado; mas, até a cooperativa, ainda imperfeita, apenas meio; meio, porém, mais da natureza dos fins; melhor, portanto. Mas o que El-Rei quer mesmo é uma economia em que, por não haver escassez, se espedacem as leis e, da que julgam fundamental, só Oferta fique; ou, o que o mesmo é, Homem se colhendo ao seio de Deus.
Agostinho da Silva – Dispersos
* In Espiral, Ano II – n.ºs 8-9, Inverno de 1965.

QUINZE PRINCÍPIOS PORTUGUESES - 10

C – FUTUROS

10 – Dos Braços – El-Rei, porém, vem ferido e cansado dos grilhões, dos maus tratos, das saudades, El-Rei quer que dele cuidem, El-Rei quer que o ressuscitem, que vem desfalecido, quase morto, da ausência e da viagem; cumpriu sua palavra de aparecer; lhe apareçamos nós agora. Se fôssemos noutros tempos, seus Três braços aqui estariam para o acolher, mas, depois da batalha, o Povo se lhe transformou e, se ainda acreditas nele é porque, na realidade, nunca desesperou de si próprio, mas mudou de nome, todo se fez no Rei e a si próprio se não pôde tratar; à Nobreza a tomaram maus ventos: uma se dispersou por longes terras, outra se teve de fazer de novo, mas não como depois de Aljubarrota, em que a sagrava a espada, mas edificando seus solares em terras leilão e tão escrava do lucro que um dia passou de rei a presidente, sem se bater, sem reagir, porque o essencial, o que era comércio, continuava; só o Clero permaneceu, porque podem as frondes ser de Tempo, e como ao Tempo ondeiam, mas é a raiz de Eternidade, a Eternidade que se não dobra nem a respeito nem a poder nem a dinheiro.
Pois seja esse um Braço novo, mas não já nos estreitos limites em que o modelara um mundo indescoberto; veja que, por termos sido, houve a Ecúmena e que, se a Pomba de novo desfere o voo, reflectem suas asas os mil cambiantes de um céu outro; Igrejas que desconhecia, por não poder ou não querer, lentamente caminham para que se reúnam num só rebanho e um só Pastor, que é Deus, o tenham; que é Deus, negado ou afirmado ou simplesmente ignorado, para uma Igreja em que todos serão chamados e todos serão eleitos. Essa Igreja de todas as Igrejas receba o Rei e o restaure.
Venham com ela a disciplina, o desprendimento, a vocação de servir que estão na alma do verdadeiro Soldado, à morte oferecido para que outros vivam; saiba aprender a que o não submetam os jogos dos políticos, nem os do lucro e ande sua força ao serviço do Povo, que tantos outros poderes podem tentar, prender, perder; a quietação que ao Rei restaure só ele a pode dar; sejam-lhe docel de outra vez noivado as espadas que até hoje tanta vez lhe impediram regresso.
Finalmente lhe seja o outro Braço de amparo aquele que outrora plantou em Portugal quem o julgou tão importante como os madeiros das naus ou os cantares da língua; desperte finalmente a Universidade de seu sono de séculos, venha ensinar-nos de novo os caminhos do mar, as fraternidades da terra, o valor da fala, as técnicas que salvam, as ciências que sonham, a juventude que se esqueceu; uma Universidade agora total como sempre deveria ter sido, desde as escolas que ensinem o povo a ler até as adivinhações que só os séculos futuros entenderão. Rei, agora para nós já indistinto de Povo, mãos de reza, mãos de espada, mãos de pena se ergam para ti ou para ti se baixem, em tua miséria e desamparo; as mãos dos fortes Braços que te erguerão ao Céu.
Agostinho da Silva – Dispersos
* In Espiral, Ano II - n.ºs 8-9, Inverno de 1965.

QUINZE PRINCÍPIOS PORTUGUESES - 9

C – FUTUROS

Das Naves – Naus ou catedral, embora na última se pense mais, para coroação do que depois de Rei do mundo tem sido mendigo de todos os que algum dia se supuseram com possibilidades íntimas de assumir por ele a realeza; ou as realezas, porquanto o que nos grandes é plural em nós se singulariza por uma e uma de nossas incapacidades: primeiro realeza, que não diríamos menos, de pastorear os rios e montes que de Monção vão até Lagos ou de S. Martinho até Almeida; depois a realeza que se iniciou em Ceuta e D. Francisco, morrendo, selou no Cabo; finalmente a realeza que se aboca no Índico e corre de ilha a ilha até às lonjuras de Hawai. Seja, pois, catedral de três naves e tão grande venha o cortejo do Rei que volta, na sua face múltipla de brancos, negros, amarelos, que por elas três tenha de desfilar, no caminho de um céu para outro céu.
O povo espera, para ser, que as portas do templo se abram e que, já Rei liberto, pois foi ele o que tombou na batalha, as três naves o chamem e que às três para ir, cumprindo a profecia, nau, que nave é, em cada uma, para cada uma se lhe depare; e o nevoeiro que o envolverá é nevoeiro do mar, em volutas na voluta das ondas, onde ele no ar aos altos mastros, irmão das flâmulas, lento mas vago, diáfano anúncio do azul que finalmente rompe no esplendor da costa, para o, profetizado, eterno , beijo da verdade.
Portugal é há três séculos uma igreja fechada e em ruínas, com ventos maus que uivam; bastará, porém, abrir-lhes as portas para que, se há prisioneiros, vejam afinal a luz do sol, e entre largo o temporal, se tiver de entrar, que ninguém lhe tem medo se de frente, e, porque se acreditou no milagre, o milagre se faça de se reconstruir e ressoar não de lamentos, mas de cantos, e se iluminar não de lembranças, mas de esperanças. Que à nossa pequenina Europa se venham juntar, em tudo iguais, à nossa pequenina África e a nossa pequenina Ásia; ou que, em termos de mar, que é nossa verdadeira linguagem, no Atlântico Norte se junte o do Sul, do Índico e Pacífico eles rolem. Portugal só será porto a que aporte a galera real se for primeiro uma República, não no sentido de que tenha presidente ou rei, mas no sentido de que tudo o que houver público seja, e nem de príncipe, ou por ele plebeu, se pense; se for depois orgulhosa e desafiadoramente Portuguesa, que essa é a língua que tem de ir de si soberba e altiva; se finalmente se declarar Federativa, significando por aí, principalmente, que todas as suas relações são de voluntariedade e de tratado. E, sobre suas três naves marítimas, o Espírito, de novo, pairará.
Agostinho da Silva – Dispersos
* In Espiral, Ano II – n.ºs 8-9, Inverno de 1965.

QUINZE PRINCÍPIOS PORTUGUESES - 8

B – PRÁTICOS

8 – Do Servir – Servos dos servos, é o maior título de glória e já todos como tal o teriam reconhecido se em tempo algum e em lugar algum pudesse ele ter sido tachado de hipocrisia. Servo dos servos deveria ser o mais querido título dos que se têm aparelhado ou se aparelham agora para a tarefa de dirigir os povos que da pequena casa lusitana ou da maior casa ibérica se derramaram ao mundo. Fácil é encontrar receitas nas boticas que já aviaram remédios, mas para seus próprios fregueses, e por várias vezes têm nossos doentes estado à morte porque tal tem sido a terapêutica. Talvez conviesse que chegássemos agora desarmados, sem teoria alguma, sem conselho nenhum a dar, e perguntássemos simplesmente que quer o povo que dele façam ou que lhe façam.
Creio bem que quererá primeiro durar, depois saber, e o resto, que para nós poremos, o povo tomará se quiser, e sobretudo se primeiro o tomarmos nós, começando por isto de servir que nos despoja bastante de nosso orgulho de que somos melhores de que os humildes e nos entreterá bastante para que durante algum tempo não aprendamos mais teorias novas em manuais estrangeiros. Se houve alguma reforma religiosa realmente válida e profunda no nosso tempo não veio ela de concílios ou de encíclicas ou de conselhos mundiais de profanas igrejas; veio de um homem só e perdido no deserto, dum homem que não encontrou jamais quem o seguisse porque, se sua vida era dura, mais dura era ainda para os espíritos eclesiásticos a obrigação de não converter ninguém, de não catequizar, de não impor doutrinas, e de substituir tudo isto pelo servir, pelo servir na companhia, pelo servir na amizade, pelo servir no que pediam, quando, raramente, se podia o que pediam.
Nos areais se perdeu uma nação, dos areais pode vir sinal decisivo, se o mesmo fizermos e praticamente nas mesmas linhas de Foucauld: se, não num campo determinadamente religioso, mas no cultural, no económico, no social, e deixemos que da política, enquanto não presta, quem não presta se incumba, formos ao povo, vivendo e sabendo, e o servirmos, sem sequer uma tentativa de o organizar, de o canalizar a qualquer rumo, de trazer água a nossos regadios, mas prontos para a resposta a qualquer pergunta, para o sim a qualquer pedido, mesmo na experiência que supomos errada, para o abrir dos caminhos que seus pés, seus magoados, seus sangrentos pés, queiram trilhar. D. Sebastião, quando surgir, não virá de nenhum de nós, a nenhum de nós adoptará como disfarce; quem acreditará que regressa de cativeiro, se aparecer bem tratado, frequentador de bibliotecas, colaborador de revistas ou chefe de repartição? El-Rei vem de desertos, vem de três séculos de fome, vem pelos caminhos do exílio, do abandono e da perseguição; qualquer do povo pode ser Ele, como outrora, nos contos, qualquer velha podia ser Nossa Senhora, qualquer mendigo podia ser Cristo; nos contos e em S. Bento. Só quererá que o sirvam, com humildade, com respeito, com eficiente obediência; de estradas sabe ele melhor que nós; das estradas reais.
Agostinho da Silva- Dispersos
* In Espiral, Ano II . n.ºs 8-9, Inverno de 1965.

QUINZE PRINCÍPIOS PORTUGUESES - 7

B- PRÁTICOS
4 - Do Poupar – Apressadamente destruímos o mundo com a gasolina dos automóveis em que solitários e magníficos nos impomos em espectáculo, com o papel de floresta em que imprimimos nossos anúncios, com o ferro e o carvão de que fabricamos nossos aços de comodidade; invasores sem escrúpulos não teriam pilhado o planeta com mais pressa e mais descanso do que nós o fazemos; nem ficamos no que tiramos de nossa inteligência, de nossos sentimentos ou de nosso tempo muito atrás do que cometemos com a riqueza material que terra e ar, talvez um dia espaço, nos oferecem.
Por outro lado, logo que uma nação mais se liberta dos temores da guerra, com sua pressão sobre a indústria pesada, surge o temor da inflação porque, tentação contínua, os bens de consumo, duradouros ou não, espiralam os salários mais rápidos que a produtividade e o sistema de lucro impõe a todo o produtor as técnicas psicológicas com que as companhias de roupa velha vendem casacas e fardamentos a sobas de África. Gasta-se tudo o que se ganha e, pelo crédito, mais do que se ganha; forçam-se as emissões, ou para pagamentos ou para fornecimento de capitais; e, se é admissível a ideia de que algum mundo antigo acabou pela destruição das florestas, talvez este mundo a que chamamos moderno ou desenvolvido possa vir a acabar, numa série de revoluções de carácter económico, pela incapacidade básica de poupar, o que significa de resistir às tentações e de se reservar para o futuro.
Poupar dinheiro, poupar pessoas, que com quanta facilidade as empresas despedem, os governos demitem, as escolas reprovam, os juízes condenam, a sociedade exclui, poupar as coisas deveria ser requisito essencial para os recrutas do exército, a ser vitorioso, que ao de Alcácer, vencido, substitua; nada poderemos gastar que não seja inteiramente indispensável a nosso viver e ao viver dos a quem servimos e ao resto o lançaremos na grande corrente de retorno que poderá desbravar mais terras ou montar mais fábricas ou lançar mais transporte, embora grande parte dele venha de se não aproveitar o que no local se tem ou de termos deixado crescer dentro de nós o irrequieto demónio que, sem ser para servirmos, nos sobressalta no cartaz de turismo ou no silvo de jactos. Se tal significam a corda ou o cinto dos religiosos, o símbolo nos convém e com ele se cinjam nossos rins; como se diz Freixo de Espada Cinta, grande nome de terra, por isso mesmo estropiado, se diga Homem de Pobreza Cinto, grande nome de gente; que Deus nos ajude a não estropiar nunca.

Agostinho da Silva – Dispersos
*In Espiral, Ano II – n.ºs 8-9, Inverno de 1965.

QUINZE PRINCÍPIOS PORTUGUESES - 6

B – PRÁTICOS
3 – Do Fazer – Pode ter-se a ideia de que o artista, e usaremos aqui a palavra tanto no sentido académico das Escolas de Belas-Artes, que parecem ter vida resistente, como no sentido, que é do povo, do operário que, através do satisfazer ao patrão, mais ainda à sua arte satisfaz, pode supor-se então que o artista vai lançando no mundo o de que Deus se esqueceu ao construí-lo. Nesta sua posição, seria o criador quem vai revelando a Deus sua infinita riqueza pois ter Deus criado o mundo não é mais do que ter tomado consciência do que era; o que ficou oculto, como em dobras de manto, lho mostra ele. Talvez, porém, lance este pensamento desaconselhável distância entre o pintor e o astrónomo e seja mais razoável que ambos apenas vêem primeiro o que estava oculto aos olhos do vulgo, quer se trate da beleza da florentina, de sempre fixada para sempre nos limites em que a matéria e energia e desejo de vida e saudade de vida divinamente se equivalem.
De qualquer modo, tudo isso surge porque os homens o fazem e, se o princípio, ou a primeira fatal queda, que o mesmo vale, principiou com a consciência, a um segundo princípio o principiaríamos com o Verbo, e a uma terceira queda, a iniciaríamos com a Acção, queda salvadora esta porque por ela podemos voltar ao Indenominado e do Indenominado à Inconsciência, fechando o ciclo. O que contribui para o progresso do mundo, tal como ele se nos apresenta hoje, não é o pensar ou o imaginar ou o fantasiar, mas o fazer. O que não amarramos no feito, máquina, livro, discurso ou vida, se nos esvai em esvaída névoa, e ficamos pior que pastor de nuvem, porque pairamos só, fantasma de zagal, sem um vulto e sem sombra, num límpido céu que, por nos não ver, nem nos acolhe nem nos repele.
Dizia o clássico que do leite não usado se apoja o úbere e se corrompe. Convém, pois, que antes corramos o risco, como o estou fazendo, de ser ou parecer precipitado, impaciente e desconhecedor de suas próprias limitações; alguém depois nos eliminará, nos corrigirá, ou, montado sobre nossos ombros de pigmeu, descobrirá distantes horizontes; mas a nossa marca ou nosso contributo, os deixámos no mundo, antes que a morte nos colhesse, ou a parada vida, pior que morte. Do conselho antigo de ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro, reteremos, agora o essencial: só teremos realmente vivido quando por nós tiver brilhado centelha numa alma, ressoado a palavra do nosso pensamento ou se afirmado o desejo de que haja mais brandas sombras nos desertos do mundo; brilhado, ressoado e se afirmado pelo fazer e no fazer.
Agostinho da Silva – Dispersos
* In Espiral, Ano II – n.ºs 8-9, Inverno de 1965,