Hoje é o dia da Mãe. Hoje é o dia do Pai. Hoje é o de d.... Como se os dias não fossem todos, de todos nós. Se cada dia é um novo dia e todos devemos partilhar a alegria de viver mais uns momentos que nos foram dados, principalmente junto de quem amamos, porque rotulam os dias, atribuindo-os a alguém que nem sequer foi consultado para tal.
Ao assinalarem um dia para Mãe ou Pai, estão a tirar a grandeza que diariamente deve estar presente em nossos corações, por termos a felicidade, de vivermos juntos de quem num acto de Amor nos gerou.
Não será necessário cada momento que passamos junto dos nossos progenitores, vivê-lo, festejá-lo e fazer desses momentos únicos, porque o são, momentos de amor junto de quem nos deu a vida?
Não foram umas quantas semanas que carregaram connosco no seu ventre para nos trazer ao mundo, dando-nos Vida; quantas vezes com sacrifícios tais, que só elas tiveram o privilégio, sim privilégio, de suportar; quantas dores tiveram ao longo do nosso crescimento, dentro do seu ventre.
Qual Árvore que dá seus frutos, assim a Mulher, é também uma Árvore de Vida; Quantas não tiveram de pagar com a própria Vida para que o milagre da vida se repetisse? Quantas não ficam com cicatrizes psíquicas ou físicas para toda a vida? Quantas noites sem dormir para que aquela criança, continuasse seu ritmo de crescimento, desconhecendo que alguém que a gerou lhe dá toda a Protecção e Amor?
Porque festejam o dia da Mãe, do Pai ou d...
Não será um negócio a nível mundial que se aproveita, usando o nome daqueles que nos são mais queridos, para nos cativar a despender por vezes o que faz falta para outras, essas sim, necessidades prementes? Quantos biliões são gastos, naqueles dias, geralmente no mais supérfluo para o nosso dia-a-dia, e vão engordar a conta dos proprietários das grandes cadeias comerciais.
Porque não criar um dia em que seja decretado em todo o Mundo o fim da violência; seja doméstica, seja entre tribos ou entre nações. Porque não fazer com aquele dia se repetisse ao longo de 365 ou 366 dias. Ah! As armas, os canhões, todo o belicismo existente, precisam de ser vendidos nem que seja a um País inimigo.
Porque nem todos podem ascender a ser ascetas, e porque já há poucas condições para que a prática de tal, possa ser cultivada; vivemos, sendo usados pelos mais diversos processos, e não avistamos a luz ao fundo do túnel, capaz de parar a máquina depradadora de todas as culturas; à qual chamam de progresso.
Porque hoje é dia de escrever a um Amigo; hoje sim, vou festejá-lo, endereçando toda a amizade que uma carta, cujas palavras de gratidão possa transportar, estreite os laços de Amizade que nos unem.
Meu Deus obrigado pelas janelas divinas que me deste, para ver e apreciar o divino que me rodeia e do qual faço parte.
terça-feira, 28 de outubro de 2008
Carta a Um Amigo 3
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José Carlos Agostinho
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Carta a um Amigo 2
Ontem falámos de crianças, vidas acabadas de nascer; vidas a começar a gostar de viver; vidas para quem o tempo não é contado, nem acham desperdício de tal. Homens e Mulheres nascidos para a vida e tendo como desafio único seu alimento para poderem suportar todas as traquinices próprias de crianças, suas corridas, seus jogos e o seu mundo próprio que os adultos por vezes não compreendem.
Hoje vou falar-lhe de outras crianças que já foram meninos; diz o ditado: de velho se torna a moço. Este é daqueles dizeres populares que assenta em toda a sua plenitude na palavra escrita.
Não é preciso calcorrear muitas ruas ou vielas, seja de aldeia ou cidade, para vê-los sentados à soleira de sua porta, quando não é alugada ou de um filho; olhos postos no além, puxando pela memória para se lembrarem de algo bom que tiveram ou passaram num tempo longínquo, cheios de vida vencendo todos os obstáculos, em que a maior parte previam um futuro risonho.
Ou vê-los fechados quais bichos, tão Humanos e tão cheios de saber, dentro de, chamam-lhe “Casas de Repouso” ou como também lhe chamam armazém de velhos; termo repugnante, carregado de desprezo.
Muitos deles voltaram a ser crianças; só que agora, o carinho de uma Mãe que os gerou, não está presente, Amor Maternal; só elas sabem quanta dor e prazer custa trazer uma Vida ao mundo; só elas sabem o que significa Amor Verdadeiro; só elas sabem quanto custa transportar uma vida no Ventre; quanto ao Pai é-lhe dado o papel de ensinar os seus primeiros passos, dar-lhe aquele apoio e aquela força moral que tanto crescimento traz às crianças. Assim aquele grupo de Homens que voltaram a ser crianças, e cujos seus descendentes, uma grande parte deles, para não os suportarem, são colocados naquelas casas, muitas delas com grades parecendo prisões; quantas delas com fachada tão bonita e acompanhadas por pessoas que praticam a Fé, quanta hipocrisia, quanta maldade é feita aqueles, muitos deles, ajudaram a construir a riqueza dos que agora os maltratam.
Grupos de Pessoas com mais idade e maior nível cultural e formativo, têm criado Universidades para a dita Terceira Idade; Professores há que se disponibilizam para ensinar as suas matérias aquelas Pessoas, para quem a idade não conta, tal a vontade de viverem aprendendo, e, ao mesmo tempo, viverem felizes.
Vamos preparar-nos, para termos a grandeza de sairmos com Serenidade, e sermos recebidos com a Alegria Divina.
Hoje vou falar-lhe de outras crianças que já foram meninos; diz o ditado: de velho se torna a moço. Este é daqueles dizeres populares que assenta em toda a sua plenitude na palavra escrita.
Não é preciso calcorrear muitas ruas ou vielas, seja de aldeia ou cidade, para vê-los sentados à soleira de sua porta, quando não é alugada ou de um filho; olhos postos no além, puxando pela memória para se lembrarem de algo bom que tiveram ou passaram num tempo longínquo, cheios de vida vencendo todos os obstáculos, em que a maior parte previam um futuro risonho.
Ou vê-los fechados quais bichos, tão Humanos e tão cheios de saber, dentro de, chamam-lhe “Casas de Repouso” ou como também lhe chamam armazém de velhos; termo repugnante, carregado de desprezo.
Muitos deles voltaram a ser crianças; só que agora, o carinho de uma Mãe que os gerou, não está presente, Amor Maternal; só elas sabem quanta dor e prazer custa trazer uma Vida ao mundo; só elas sabem o que significa Amor Verdadeiro; só elas sabem quanto custa transportar uma vida no Ventre; quanto ao Pai é-lhe dado o papel de ensinar os seus primeiros passos, dar-lhe aquele apoio e aquela força moral que tanto crescimento traz às crianças. Assim aquele grupo de Homens que voltaram a ser crianças, e cujos seus descendentes, uma grande parte deles, para não os suportarem, são colocados naquelas casas, muitas delas com grades parecendo prisões; quantas delas com fachada tão bonita e acompanhadas por pessoas que praticam a Fé, quanta hipocrisia, quanta maldade é feita aqueles, muitos deles, ajudaram a construir a riqueza dos que agora os maltratam.
Grupos de Pessoas com mais idade e maior nível cultural e formativo, têm criado Universidades para a dita Terceira Idade; Professores há que se disponibilizam para ensinar as suas matérias aquelas Pessoas, para quem a idade não conta, tal a vontade de viverem aprendendo, e, ao mesmo tempo, viverem felizes.
Vamos preparar-nos, para termos a grandeza de sairmos com Serenidade, e sermos recebidos com a Alegria Divina.
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segunda-feira, 27 de outubro de 2008
Carta a Um Amigo 1
Hoje gostaria de falar daquele continente, cujo tema, ainda não chegámos a esclarecer e tanto há para dizer acerca do mesmo. Ontem ouvi dizer num programa da National Geographfic, se ouvi bem, que há muitos milhões de anos tivemos no planeta sete continentes; hoje não sei quantos há; devido ao degelo que se está a dar provavelmente criar-se-ão outros continentes; embora seja assim perante a classificação que os homens de saber lhes atribuem, ainda não repararam que há aquele continente que eles próprios transportam; sejamos mais diligentes um pouco na busca de encontrar motivos para que possamos chamar-lhe assim.
Vamos percorrer esse trilho de veredas, ruelas, avenidas e grandes lagos que o mesmo possui; vamos chamar ao que enfeita o exterior os jardins suspensos; quantas variedades, qualidades e formas de crescimento há neste conjunto; tantas, como seres humanos que existem à superfície do planeta; uns mais coloridos, outros mais lisos, outros mais curtos, ainda outros mais compridos e mais invulgares. Do sitio do Pavilhão do Conhecimento – Ciência Viva; tirei o seguinte: os pêlos têm 3 funções: isolam do calor ou do frio, protegem a pele quando o animal se desloca no seu meio e formam uma espécie de “radar” (sobretudo os pêlos da cauda e ao longo da coluna, à semelhança dos bigodes); se partirmos em direcção à máquina que bombeia o sangue para todos os circuitos, qual lago que alimenta milhares de rios dando-lhe Vida. Se formos para a parte que diz respeito ao que alimenta o corpo dando origem ao sangue para todo os nosso organismo ali temos outro mapa para nos orientar para uns lugares remotos, cuja importância em todos eles existe, claro, mas ali é mesmo vital o seu mau funcionamento.
Obra do Divino, uma das obras maravilhosas que o Criador nos deixou para usufruirmos de todo um Planeta que tão mal tratado foi que está a ficar cansado, doente e prestes, pois assim não aguentará muitas centenas de anos, a assistir, claro, quem cá estiver, à sua destruição. Continuando a desaparecer as espécies a um ritmo que tem sido observado ultimamente, terão as gerações vindouras motivos para nos culparem por aquilo que lhe legámos. O próprio corpo humano e todas as espécies, ou seja tudo o que existe no planeta virão a sofrer modificações das mais variadas no campo da genética.
O tal continente que acima se refere, tal como os outros geograficamente localizados e uma vez que se estão a deslocar à média de dois centímetros por ano, será o que mais virá a sofrer com todos os desequilíbrios que se vieram a manifestar. E a surdez de uns a ganância de outros e a ambição sem limites, que é apanágio em muitos cérebros, não pára um pouco para escutar a voz dos que estudam o comportamento do meio em que vivemos perante as ameaças diárias que lhes infligem.
Pelo seu comportamento, pelo prazer de viver e não olhando aos meios com que o faz, pela sua atitude perante toda uma Vida que se desejaria saudável, mas que os procedimentos o contradizem, asfixia-se todo um Paraíso que o Criador pôs à nossa disposição para uma Vida cheia de saúde, paz e alegria. Poderemos deixar a citação: por quem os sinos dobram.
Não são os holofotes do palco que te iluminam mas sim a Luz que tens de procurar dentro de Ti; ou caminharás para o abismo.
Jotabea
Vamos percorrer esse trilho de veredas, ruelas, avenidas e grandes lagos que o mesmo possui; vamos chamar ao que enfeita o exterior os jardins suspensos; quantas variedades, qualidades e formas de crescimento há neste conjunto; tantas, como seres humanos que existem à superfície do planeta; uns mais coloridos, outros mais lisos, outros mais curtos, ainda outros mais compridos e mais invulgares. Do sitio do Pavilhão do Conhecimento – Ciência Viva; tirei o seguinte: os pêlos têm 3 funções: isolam do calor ou do frio, protegem a pele quando o animal se desloca no seu meio e formam uma espécie de “radar” (sobretudo os pêlos da cauda e ao longo da coluna, à semelhança dos bigodes); se partirmos em direcção à máquina que bombeia o sangue para todos os circuitos, qual lago que alimenta milhares de rios dando-lhe Vida. Se formos para a parte que diz respeito ao que alimenta o corpo dando origem ao sangue para todo os nosso organismo ali temos outro mapa para nos orientar para uns lugares remotos, cuja importância em todos eles existe, claro, mas ali é mesmo vital o seu mau funcionamento.
Obra do Divino, uma das obras maravilhosas que o Criador nos deixou para usufruirmos de todo um Planeta que tão mal tratado foi que está a ficar cansado, doente e prestes, pois assim não aguentará muitas centenas de anos, a assistir, claro, quem cá estiver, à sua destruição. Continuando a desaparecer as espécies a um ritmo que tem sido observado ultimamente, terão as gerações vindouras motivos para nos culparem por aquilo que lhe legámos. O próprio corpo humano e todas as espécies, ou seja tudo o que existe no planeta virão a sofrer modificações das mais variadas no campo da genética.
O tal continente que acima se refere, tal como os outros geograficamente localizados e uma vez que se estão a deslocar à média de dois centímetros por ano, será o que mais virá a sofrer com todos os desequilíbrios que se vieram a manifestar. E a surdez de uns a ganância de outros e a ambição sem limites, que é apanágio em muitos cérebros, não pára um pouco para escutar a voz dos que estudam o comportamento do meio em que vivemos perante as ameaças diárias que lhes infligem.
Pelo seu comportamento, pelo prazer de viver e não olhando aos meios com que o faz, pela sua atitude perante toda uma Vida que se desejaria saudável, mas que os procedimentos o contradizem, asfixia-se todo um Paraíso que o Criador pôs à nossa disposição para uma Vida cheia de saúde, paz e alegria. Poderemos deixar a citação: por quem os sinos dobram.
Não são os holofotes do palco que te iluminam mas sim a Luz que tens de procurar dentro de Ti; ou caminharás para o abismo.
Jotabea
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Um Grande Português - Agostinho da Silva
Agostinho da Silva (1906-1994) ficou em 21º lugar na votação do programa da RTP "Os Grandes Portugueses", na qual os portugueses elegeram as maiores figuras nacionais de sempre. É um dos mais notáveis filósofos da nossa História.
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sábado, 25 de outubro de 2008
Desfiladeiro
Talvez porque mais conheço a América, tão discutivelmente chamada Latina, onde o fenómeno ganhou proporções de catástrofe, me impressiona sobretudo, dentre as crises digamos institucionais da Igreja Católica, a que se refere ao que se denomina falta de vocações; cada vez menos jovens se encaminham para os seminários, dos que lá entram cada vez menos se formam e ordenam, de modo que as paróquias se tornaram de uma extensão tal que ficam os fieis sem amparo e os padres esgotados de as percorrer a lombo de cavalo, e ainda quando tal é possível; para quem não acredita na economia divina da Igreja e atenta, ao mesmo tempo, no crescimento de outras Igrejas cristãs ou do espiritismo ou dos cultos afro-americanos, a resposta a perguntas que se façam aparece clara: a Igreja se dirige a seu fim, não é eterna, como se julgava, outras a estão ultrapassando, ou paga então, morrendo, faltas que seus críticos acham não só demasiado humanas como também demasiado numerosas; para quem, pelo contrário, vai por essa economia divina e olha a Igreja muito menos pelo seu lado institucional do que como o corpo místico de Deus no Cristo, a reflexão a fazer é a de que, não podendo seu Esposo abandoná-la, não haverá falta de padres, mas de católicos, que a proporção continua a ser a certa e que está ainda indo à missa, ouvindo sermão e reclamando sacramento muita gente que apenas o faz por costume, superstição ou conveniências de acesso social.
Por outro lado, estão abandonando a Igreja muitos padres já formados, alguns com muito ano de devoção, alguns com altos graus eclesiásticos, o que confirma, para os agnósticos ou para os de outras correntes religiosas, cristãs ou não, que a Igreja falece e para os crentes na inspiração divina que o número de verdadeiros católicos é ainda menos do que se pensava porque, para que se mantenha a proporção exacta, não basta que os seminários vejam diminuída a sua frequência, é necessário também que saiam muitos dos sacerdotes que já existiam; acresce a esta reflexão, tanto para uma como para outra corrente, mas sobretudo para a segunda, que mais interesse tem de atender o que se passa, que muita gente deve ter no passado ido para a Igreja, para ser padre, muito mais por motivos económicos do que por irrefreável vocação; o seminário era uma escola barata ou gratuita, mantinha o aluno interno, o que aliviava igualmente o orçamento familiar, aqui pura imagem, porque os miseráveis não têm orçamento, têm apenas fome e desespero, e ainda dava às famílias humildes a certeza de que a missa nova lançava o seu menino na carreira do poder e que em breve o veriam nos palanques de festa ao lado das autoridades civis e militares, nem sequer naturalmente lhes passando pela cabeça o problema de se era esta ou não atitude cristã; ora, com os países lançados no caminho do desenvolvimento, outras perspectivas se abrem e novas economias, aliás ainda bem frouxas, incitam a carreiras novas; e aqui está porventura a palavra exacta: para muitos era a Igreja uma carreira, quando devia ser a renúncia a qualquer carreira, a não ser a que levasse à Cruz; mas sucedia aqui o que sucedia noutros tempos bem antigos, quando os exércitos eram de mercenários; tratava-se de um modo de vida, não de uma disposição para morrer.
Acresce a isto que uma crise institucional e doutrinal se veio somar a tudo; os adversários da Igreja se rejubilam, embora o possam aplaudir por conveniências políticas ou por convicção pessoal, com o facto de se discutir tão ardorosamente se padre deve ou não casar, como se casar fosse um dever, se pode ou não pode casar, como se alguma vez alguma lei tivesse proibido alguém de fazer alguma coisa, coitada da lei que apenas pune quem faz uma escolha diferente da que ela fez; ou com o facto de se discutir se um catecismo feito com aprovação do bispo é ou não é cristão, quando talvez se devesse discutir se afinal o Espírito Santo, que inspirou o bispo, não perceberá mais desses assuntos do que os leigos ou, se há opiniões diferentes de outros homens também inspirados, se não significa isso que o Espírito se deleita com a variedade de opiniões, ou até se será realmente cristão que haja catecismos, quando as autênticas certezas nunca vêm de fora, mas de dentro de nós nascem e crescem; ou com o facto de se discutir se o cristianismo é divino ou humano, se Deus está existindo, se o padre deve consolar os miseráveis ou protestar contra a miséria, como se ainda se pudesse duvidar de que o mundo é isto e aquilo, de que a Cristo, como homem, cumpria afirmar a vida, e, como Deus, morrer às mãos dos grandes, e de que, quanto a miséria, o que o padre devia fazer era consolar os cegos poderosos que não querem abrir os olhos e ver a luz, que bem precisam esses de misericórdia, e repetir uma e outra vez ao padre que nuvem pode, de vez em quando, tapar o Sol, mas que jamais o impedirá de nascer.
Talvez houvesse, quanto ao conjunto, que formular uma hipótese: a de que a Igreja está apenas atravessando uma garganta de serra, de que está somente sofrendo, como lhe compete, sua própria paixão, de que, crucificada, ressurgirá, não já para as limitações da terra mas para toda a amplidão dos céus, não já companheira dos Estados mas servidora dos homens e querendo não já somente uma sociedade justa, que isso o farão os homens, mesmo sem ela, mas uma sociedade de homens justos, isto é, santos; de homens que entendam a todo o homem e a todo o veja como irmão e até como irmão superior, qualquer que seja a raça ou o credo; que tenham qualquer problema material dos outros como sua pungente aflição de espírito; que possam dispensar o sinal exterior do sacramento por serem de sagrada estrutura; que se digam católicos, isto é, totais, por estarem dentro deles, com eles, o muçulmano e o budista; que se digam apostólicos por todos os dias, infatigáveis, se pregarem a si próprios que devem ser melhores do que são; que sejam romanos por quererem, alargando o ideal de Roma antiga, de que deveriam ser herdeiros os homens que falam português, que seja todo o homem cidadão do mundo: que passemos da província ao Universo.
Agostinho da Silva – Textos e Ensaios Filosóficos II
*«Desfiladeiro», Notícia, n.º 583, 6 de Fevereiro de 1971.
Por outro lado, estão abandonando a Igreja muitos padres já formados, alguns com muito ano de devoção, alguns com altos graus eclesiásticos, o que confirma, para os agnósticos ou para os de outras correntes religiosas, cristãs ou não, que a Igreja falece e para os crentes na inspiração divina que o número de verdadeiros católicos é ainda menos do que se pensava porque, para que se mantenha a proporção exacta, não basta que os seminários vejam diminuída a sua frequência, é necessário também que saiam muitos dos sacerdotes que já existiam; acresce a esta reflexão, tanto para uma como para outra corrente, mas sobretudo para a segunda, que mais interesse tem de atender o que se passa, que muita gente deve ter no passado ido para a Igreja, para ser padre, muito mais por motivos económicos do que por irrefreável vocação; o seminário era uma escola barata ou gratuita, mantinha o aluno interno, o que aliviava igualmente o orçamento familiar, aqui pura imagem, porque os miseráveis não têm orçamento, têm apenas fome e desespero, e ainda dava às famílias humildes a certeza de que a missa nova lançava o seu menino na carreira do poder e que em breve o veriam nos palanques de festa ao lado das autoridades civis e militares, nem sequer naturalmente lhes passando pela cabeça o problema de se era esta ou não atitude cristã; ora, com os países lançados no caminho do desenvolvimento, outras perspectivas se abrem e novas economias, aliás ainda bem frouxas, incitam a carreiras novas; e aqui está porventura a palavra exacta: para muitos era a Igreja uma carreira, quando devia ser a renúncia a qualquer carreira, a não ser a que levasse à Cruz; mas sucedia aqui o que sucedia noutros tempos bem antigos, quando os exércitos eram de mercenários; tratava-se de um modo de vida, não de uma disposição para morrer.
Acresce a isto que uma crise institucional e doutrinal se veio somar a tudo; os adversários da Igreja se rejubilam, embora o possam aplaudir por conveniências políticas ou por convicção pessoal, com o facto de se discutir tão ardorosamente se padre deve ou não casar, como se casar fosse um dever, se pode ou não pode casar, como se alguma vez alguma lei tivesse proibido alguém de fazer alguma coisa, coitada da lei que apenas pune quem faz uma escolha diferente da que ela fez; ou com o facto de se discutir se um catecismo feito com aprovação do bispo é ou não é cristão, quando talvez se devesse discutir se afinal o Espírito Santo, que inspirou o bispo, não perceberá mais desses assuntos do que os leigos ou, se há opiniões diferentes de outros homens também inspirados, se não significa isso que o Espírito se deleita com a variedade de opiniões, ou até se será realmente cristão que haja catecismos, quando as autênticas certezas nunca vêm de fora, mas de dentro de nós nascem e crescem; ou com o facto de se discutir se o cristianismo é divino ou humano, se Deus está existindo, se o padre deve consolar os miseráveis ou protestar contra a miséria, como se ainda se pudesse duvidar de que o mundo é isto e aquilo, de que a Cristo, como homem, cumpria afirmar a vida, e, como Deus, morrer às mãos dos grandes, e de que, quanto a miséria, o que o padre devia fazer era consolar os cegos poderosos que não querem abrir os olhos e ver a luz, que bem precisam esses de misericórdia, e repetir uma e outra vez ao padre que nuvem pode, de vez em quando, tapar o Sol, mas que jamais o impedirá de nascer.
Talvez houvesse, quanto ao conjunto, que formular uma hipótese: a de que a Igreja está apenas atravessando uma garganta de serra, de que está somente sofrendo, como lhe compete, sua própria paixão, de que, crucificada, ressurgirá, não já para as limitações da terra mas para toda a amplidão dos céus, não já companheira dos Estados mas servidora dos homens e querendo não já somente uma sociedade justa, que isso o farão os homens, mesmo sem ela, mas uma sociedade de homens justos, isto é, santos; de homens que entendam a todo o homem e a todo o veja como irmão e até como irmão superior, qualquer que seja a raça ou o credo; que tenham qualquer problema material dos outros como sua pungente aflição de espírito; que possam dispensar o sinal exterior do sacramento por serem de sagrada estrutura; que se digam católicos, isto é, totais, por estarem dentro deles, com eles, o muçulmano e o budista; que se digam apostólicos por todos os dias, infatigáveis, se pregarem a si próprios que devem ser melhores do que são; que sejam romanos por quererem, alargando o ideal de Roma antiga, de que deveriam ser herdeiros os homens que falam português, que seja todo o homem cidadão do mundo: que passemos da província ao Universo.
Agostinho da Silva – Textos e Ensaios Filosóficos II
*«Desfiladeiro», Notícia, n.º 583, 6 de Fevereiro de 1971.
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A difícil prova
Muitos motivos se juntaram e muitos tempos confluíram para o que já se tornou, sob o nome de crise da Igreja, tema fácil de artigos, assunto de uma biografia que mal se domina e pretexto pronto para toda as pequenas conversas sem propósito definido e sem seguimento que se veja; na realidade, apontam-se crises, desde a puramente doutrinal ou teológica, com as discussões sobre a natureza de Deus ou sobre o interesse da relação que com ele possa ter o homem ou até sobre a sua existência como que ligada à história admitindo-se-lhe a vigência no princípio dos tempos, vendo--o depois como cada vez mais se afastando, ou sendo afastado, de sua criação, até desaparecer como figura inútil para a harmonia do cosmos ou a paz da alma; com passagem pela crise sobre historicidade da Igreja e de suas concepções, revendo-se a documentação sobre os santos, com as consequentes eliminações do calendário, e pondo-se outros conceitos ou determinações, por exemplo a do celibato sacerdotal, como puramente em relação com um definido e ultrapassado estádio de organização, não como ligado à vocação ou exigido pelo exercício; finalmente se chegando à crise que mais impressiona o público e levanta problemas para quem se encarregou de manter a ordem, a de um clero jovem ou de uma amadurecida hierarquia que reclamam intervenção activa da Igreja nas questões económicas, sociais e políticas, com decidida defesa dos direitos dos pobres, ao contrário do que era hábito praticar-se; dos homens pobres e das nações pobres.
Perante o que, em termos muito brandos, poderemos definir como a perplexidade das autoridades católicas, levanta-se a perplexidade dos fiéis e não deixam naturalmente de aparecer, nos que não são autoridade nem fiel, no público de outras religiões ou no agnóstico ou no indiferente, perguntas não sobre o passado da Igreja mas sobre o seu presente e, principalmente, sobre o seu futuro; para uns, talvez mais lidos em história e que se lembrem talvez de toda a luta contra as heterodoxias nos primeiros séculos de vida da Igreja ou da grande crise luterana do século XVI, trata-se de uma tempestade superável, a que, por adaptações, concessões e reformas, se irá seguir um patamar clássico de noções assentes e de procedimentos que não ponham problema algum; para outros, trata-se, e na maior parte das vezes, desejadamente, de uma crise final; incapaz de se adequar ao mundo novo que surge, ancilosada por hábitos que o repouso criou, travada por sua armadura de prestígios e pompas. O catolicismo desapareceria, como desapareceu a religião egípcia ou sumiram os cultos assírios, reduzir-se-ia a uma minoria sobrevivente como o budismo na Índia e o judaísmo em nosso mundo mais próximo, ou até mesmo seria apenas um caso, digamos local, de uma superação actual da religiosidade que tem sido característica humana.
Seja como for, tem a Igreja pela frente uma tarefa complicada, que seus membros mais conscientes e de maior fé verão como menos entregue ao talento, boa vontade ou habilidade de homens do que às inspirações de divindade ou de santidade que o corpo místico e o corpo prático souberam receber e seguir; como, segundo o povo, escreve Deus direito, mas por tortas linhas, poderão vir as soluções de formas muito diferentes daquelas que se estão pensando ou antevendo; parece, no entanto, que assentariam em duas bases, a de que podem perfeitamente ser dispensados da Igreja os que a ela foram por medo ou conveniência, que medo é, e a lembrança de que catolicismo, quer, etimologicamente, dizer universalismo e, portanto, um ecumenismo que se não importe apenas com cristãos, mas vá aos muçulmanos, aos animistas, aos budistas ou aos xintoístas, e, ouso dizê-lo, aos agnósticos e aos ateus, ensinando a todos fé na vida, que Deus é, esperança no futuro, que Deus já é, só que ocultamente a nossos limitados olhos, e uma caridade que se desprenda do material entregue esse, com melhores resultados, à economia e à política, e se debruce sobre os problemas espirituais do homem, compreendendo a todas as angústias e amparando a todos os desvios.
Parece, porém, que o mais grave de tudo não é a crise que possa haver dentro da Igreja, limitada afinal a alguns milhões de homens, mas a que, fora dela, há quanto a ela, e que abrange, essa, biliões de homens; em cada nação teoricamente cristã são muitos os que não acreditam mais na sinceridade da Igreja, apoiam sem discutir todos os que vão contra ou a deixam, e vêem todas as medidas de compreensão de novos tempos como simples habilidades políticas, destinadas a fundamentalmente conservarem o poder e manterem o lucro; fora das nações cristãs, os povos de Ásia ou África, que sentiram em sua carne o missionário que precedia o comerciante e o soldado, ou os povos da América, para os quais a Igreja esteve sempre ao lado do tirano local, igualmente olham consagrações ou visitas ou apoio à libertação como puro jogo estratégico de influência a guardar ou aumentar; o difícil para a Igreja, vai ser persuadir o mundo de que seu proceder é de real conversão, com arrependimento e bom propósito; confissão geral, penitência e comunhão dos santos, eis o que muitos reclamam, esperam e desejam, confiados na divindade da Igreja; que a Deus os restituiria, lançando-os pela única estrada em que plenamente podem ser homens: a de superar humanidade.
Agostinho da Silva – Textos e Ensaios Filosóficos II
*«A difícil Prova», Notícia», n.º 574, 5 de Dezembro de 1970
Perante o que, em termos muito brandos, poderemos definir como a perplexidade das autoridades católicas, levanta-se a perplexidade dos fiéis e não deixam naturalmente de aparecer, nos que não são autoridade nem fiel, no público de outras religiões ou no agnóstico ou no indiferente, perguntas não sobre o passado da Igreja mas sobre o seu presente e, principalmente, sobre o seu futuro; para uns, talvez mais lidos em história e que se lembrem talvez de toda a luta contra as heterodoxias nos primeiros séculos de vida da Igreja ou da grande crise luterana do século XVI, trata-se de uma tempestade superável, a que, por adaptações, concessões e reformas, se irá seguir um patamar clássico de noções assentes e de procedimentos que não ponham problema algum; para outros, trata-se, e na maior parte das vezes, desejadamente, de uma crise final; incapaz de se adequar ao mundo novo que surge, ancilosada por hábitos que o repouso criou, travada por sua armadura de prestígios e pompas. O catolicismo desapareceria, como desapareceu a religião egípcia ou sumiram os cultos assírios, reduzir-se-ia a uma minoria sobrevivente como o budismo na Índia e o judaísmo em nosso mundo mais próximo, ou até mesmo seria apenas um caso, digamos local, de uma superação actual da religiosidade que tem sido característica humana.
Seja como for, tem a Igreja pela frente uma tarefa complicada, que seus membros mais conscientes e de maior fé verão como menos entregue ao talento, boa vontade ou habilidade de homens do que às inspirações de divindade ou de santidade que o corpo místico e o corpo prático souberam receber e seguir; como, segundo o povo, escreve Deus direito, mas por tortas linhas, poderão vir as soluções de formas muito diferentes daquelas que se estão pensando ou antevendo; parece, no entanto, que assentariam em duas bases, a de que podem perfeitamente ser dispensados da Igreja os que a ela foram por medo ou conveniência, que medo é, e a lembrança de que catolicismo, quer, etimologicamente, dizer universalismo e, portanto, um ecumenismo que se não importe apenas com cristãos, mas vá aos muçulmanos, aos animistas, aos budistas ou aos xintoístas, e, ouso dizê-lo, aos agnósticos e aos ateus, ensinando a todos fé na vida, que Deus é, esperança no futuro, que Deus já é, só que ocultamente a nossos limitados olhos, e uma caridade que se desprenda do material entregue esse, com melhores resultados, à economia e à política, e se debruce sobre os problemas espirituais do homem, compreendendo a todas as angústias e amparando a todos os desvios.
Parece, porém, que o mais grave de tudo não é a crise que possa haver dentro da Igreja, limitada afinal a alguns milhões de homens, mas a que, fora dela, há quanto a ela, e que abrange, essa, biliões de homens; em cada nação teoricamente cristã são muitos os que não acreditam mais na sinceridade da Igreja, apoiam sem discutir todos os que vão contra ou a deixam, e vêem todas as medidas de compreensão de novos tempos como simples habilidades políticas, destinadas a fundamentalmente conservarem o poder e manterem o lucro; fora das nações cristãs, os povos de Ásia ou África, que sentiram em sua carne o missionário que precedia o comerciante e o soldado, ou os povos da América, para os quais a Igreja esteve sempre ao lado do tirano local, igualmente olham consagrações ou visitas ou apoio à libertação como puro jogo estratégico de influência a guardar ou aumentar; o difícil para a Igreja, vai ser persuadir o mundo de que seu proceder é de real conversão, com arrependimento e bom propósito; confissão geral, penitência e comunhão dos santos, eis o que muitos reclamam, esperam e desejam, confiados na divindade da Igreja; que a Deus os restituiria, lançando-os pela única estrada em que plenamente podem ser homens: a de superar humanidade.
Agostinho da Silva – Textos e Ensaios Filosóficos II
*«A difícil Prova», Notícia», n.º 574, 5 de Dezembro de 1970
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José Carlos Agostinho
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Alicerces da Paz
No que posso, e realmente não é muito, estando muito mais ainda em desejo do que em realidade, pertenço ao grupo dos que acreditam em geometria, tanto sob o ponto de vista teórico, como pelo que respeita à utilidade prática, nos vários sentidos em que a expressão tem sido tomada, como ainda, o que é o mais importante de tudo, na medida em que a geometria tem sido olhada como a revelação da própria realidade mais íntima do Universo; acho que ninguém deveria entregar-se a nenhuma espécie de especulação sem que tivesse passado pela geometria, o que naturalmente não significa a mesma coisa do que saber geometria; o que se torna necessário é ter entendido geometria, e sobretudo em dois pontos capitais: o de, através de Descartes, a retirar por completo do espaço, a que a noção comum a liga inexoravelmente, como que lembrando-se ainda das supostas origens num pesado Egipto, que entendia de tudo ou quase tudo, excepto matemática; e o de, através de mais modernos, ver todas as geometrias que podemos entender como a variada, a facetada projecção em nossa mente, de uma essencial geometria que ainda não atingimos.
Creio ainda que, entendida a geometria para além das técnicas exigidas nos exames e que têm, pedagógica e espiritualmente, o mesmo valor de lavar bem a louça ou costurar bem ou, até, de saber latim, ela aparece como inteira e desejavelmente aplicável a tudo o que na vida se desenrola. Se, cartesianamente uma vez mais, a física moderna não é verdadeiramente outra coisa senão geometria, e cada dia chegando mais perto da tal geometria essencial, que só vai, toda ela, poder ser pensada e não imaginada ou representada, o que é necessário é que rapidamente entre a química, o que na essência já está feito, na categoria geométrica e logo após ela venha a biologia a libertar-se de princípios vitais mais fantasiosos que reais; e, ao contrário do que é de hábito supor-se, é exactamente quando a mais renitente, e porque mais complexa e mais atrasada das ciências, se tiver geometrizado que todas as tendências positivistas terão sido definitivamente derrubadas: porque pela sua liberdade essencial, pela sua fantasia, a geometria é inimiga de factos, de fenómenos e de leis, pelo menos do que até há pouco se entendia, em física, por lei.
O grande passo a dar é, porém, o da História. Ela é a nossa vida, ao passo que a outra é apenas o nosso saber; nenhuma física e nenhuma química têm criado as grandes melancolias; mas o tem a História, quando aparece como aquele sonho de loucos contado por um débil mental a que já tem sido comparada; o entendimento racional da História, nas suas origens, em todo o seu desenrolar e nos seus fins últimos, mostrará como toda ela vem, e em todas as suas características, de alguma vez ter suposto o homem que eram melhores os seu próprios planos do que os planos de Deus, de que era melhor mandar do que obedecer, de que, finalmente, valiam mais as suas pobres geometrias a três, quatro, cinco ou n dimensões do que a fundamental geometria divina, a geometria a dimensão alguma. A pobre ideia de que se podia, sem angústia e sem saudade, substituir pela música desenrolando-se no tempo a intemporal música divina. A História vai ser simples quando for entendida; o homem vai ser humilde quando entender a História; quando ela, para ser entendida, se tiver feito geometria.
O mais estranho, no entanto, é que muitos, mesmo sem essa geometrização que trará, pelo entender, a paz, tenham chegado já há muito à mesma ideia simples e fundamental de que é a raiz de tudo ter tido o homem uma visão de si próprio que não era uma visão em Deus, de se ter considerado o homem como um ser separável e separado de Deus. E o que mais tem perturbado tem sido exactamente que tem surgido a ideia e a prática em gente humilde, despida quase sempre de grande cultura e que parece muitas vezes mesmo um pouco inapta à apreensão do que já se tem conseguido avançar no caminho da explicação geométrica.
Foi este espanto dos racionais e dos cultos que fez supor a muitas filosofias que havia uma forma de conhecimento de carácter senão irracional pelo menos arracional, a que logo se deu o nome de intuitivo; quem parecia não ter partido de Euclides ou parecia não poder chegar a Euclides, mas ao mesmo tempo se adiantava aos caminhantes científicos, era logo por eles colocado na categoria dos intuitivos, como se não devêssemos aqui prosseguir na ideia de que, à boa maneira da filosofia chamada clássica, a intuição é ainda conhecimento racional, só que um conhecimento racional tão seguro e claro que não pode sofrer a menor espécie de dúvida. O que principalmente agravava as coisas era que os tais intuitivos se não limitavam aos exemplos, também clássicos, das propriedades intrínsecas dos triângulos; iam a assuntos muito mais difíceis e às vezes ainda bem longe da alçada dos sábios.
Por outro lado, havia uma lamentável tendência para que a intuição, isto é, uma inteligência mais aguda, mais penetrante e, digamos assim, mais longínqua, se manifestasse principalmente em mulheres e crianças, considerados desde sempre, numa cultura que tem sido de adultos e de homens, como de capacidade inferior; além de tudo, havia a tal inapetência para os caminhos longamente trilhados para a ciência: desprezavam-se os homens das botas de sete léguas porque eles não tinham interesse algum em percorrer, por miúdos centímetros, as estradas dos outros. Creio que uma grande e cómica surpresa aguarda em outra vida os que nesta foram suficientes e sábios: a de descobrir que eram apenas inteligentes, e às vezes mediocremente inteligentes, e que as mulheres, que tantas vezes desprezaram, se elevavam, sem esforço e sem orgulho, às regiões do génio; como vão descobrir que terem enviado seus filhos à escola apenas os atrasou na verdadeira cultura. Foram muito modestas, em todos os tempos, as femininistas quando defenderam que as mulheres eram tão inteligentes quanto os homens, porque na realidade o são mais; foram injustos os educadores quando defenderam que as crianças podem entender o mesmo que os adultos, porque na realidade podem entender mais. E se me pareceu sempre haver mais genial concentração na criança que brinca do que no sábio, não é menos verdade de que o facto de haver nas igrejas menos homens que mulheres me pareceu sempre um grande argumento quanto à verdade do catolicismo.
De qualquer modo, se vai ser um grande caminho para a paz o de, pelo paciente esforço dos menos inteligentes ou pela fulgurante chegada dos mais inteligentes, se entender a História do mundo e por ela a nossa posição no dito mundo, e se vai a Paz consistir fundamentalmente em, pela clarificação geométrica da vida, voltarem ao Pai todos os seus filhos pródigos, a grande força de avanço, o grande motor deste passar dos povos não está verdadeiramente nos que se deslocam, mas nos que de alguma forma vão participando do movimento, para que não falte companhia aos que marcham, mas na realidade já há muito chegaram.
São estes os que são desprezados e não se revoltam, os que obscuramente sabem e ninguém consulta, os que ficam anónimos nas grandes obras a que se ligam nomes alheios, principalmente os que sabem que o dever essencial consiste em, com êxito, com reconhecimento ou sem reconhecimento, com agradecimento ou sem agradecimento, ter fá na importância de sua posição, sobretudo na importância de aguentar calado e alegre a carga que vier, porventura achando-a sempre leve de mais, apesar de todo o sofrimento; os que têm esperança na redenção final do mundo e levarão o seu apagamento ao ponto de não dizerem aos outros o que sempre souberam; os que têm a bastante caridade para transferirem sua própria glória para os actos dos outros.
E se tivéssemos que nomear os que assim procedem; se tivéssemos que dizer quem, porque as estrelas estão dentro de si, se roja na poeira; se tivéssemos que apontar os melhores dos santos – veríamos que estranhamente coincide esta santidade com a radical inteligência de que há pouco falávamos. Temos santos entre nós e não os conhecemos porque nos atrapalha o participarem eles tão intimamente da nossa vida e, sobretudo, o tão frequentemente nos utilizarmos nós deles para a nossa vida, mas, se assim não fosse, já teríamos nós dado há muito tempo a mulheres e crianças o lugar que verdadeiramente merecem; e já teríamos entendido por que motivo tão facilmente Jesus se comovia ante a sua fragilidade e a sua miséria.
Agostinho da Silva – Textos e Ensaios Filosóficos II
*As Aproximações, Lisboa, Guimarães Editores, 1960.
Creio ainda que, entendida a geometria para além das técnicas exigidas nos exames e que têm, pedagógica e espiritualmente, o mesmo valor de lavar bem a louça ou costurar bem ou, até, de saber latim, ela aparece como inteira e desejavelmente aplicável a tudo o que na vida se desenrola. Se, cartesianamente uma vez mais, a física moderna não é verdadeiramente outra coisa senão geometria, e cada dia chegando mais perto da tal geometria essencial, que só vai, toda ela, poder ser pensada e não imaginada ou representada, o que é necessário é que rapidamente entre a química, o que na essência já está feito, na categoria geométrica e logo após ela venha a biologia a libertar-se de princípios vitais mais fantasiosos que reais; e, ao contrário do que é de hábito supor-se, é exactamente quando a mais renitente, e porque mais complexa e mais atrasada das ciências, se tiver geometrizado que todas as tendências positivistas terão sido definitivamente derrubadas: porque pela sua liberdade essencial, pela sua fantasia, a geometria é inimiga de factos, de fenómenos e de leis, pelo menos do que até há pouco se entendia, em física, por lei.
O grande passo a dar é, porém, o da História. Ela é a nossa vida, ao passo que a outra é apenas o nosso saber; nenhuma física e nenhuma química têm criado as grandes melancolias; mas o tem a História, quando aparece como aquele sonho de loucos contado por um débil mental a que já tem sido comparada; o entendimento racional da História, nas suas origens, em todo o seu desenrolar e nos seus fins últimos, mostrará como toda ela vem, e em todas as suas características, de alguma vez ter suposto o homem que eram melhores os seu próprios planos do que os planos de Deus, de que era melhor mandar do que obedecer, de que, finalmente, valiam mais as suas pobres geometrias a três, quatro, cinco ou n dimensões do que a fundamental geometria divina, a geometria a dimensão alguma. A pobre ideia de que se podia, sem angústia e sem saudade, substituir pela música desenrolando-se no tempo a intemporal música divina. A História vai ser simples quando for entendida; o homem vai ser humilde quando entender a História; quando ela, para ser entendida, se tiver feito geometria.
O mais estranho, no entanto, é que muitos, mesmo sem essa geometrização que trará, pelo entender, a paz, tenham chegado já há muito à mesma ideia simples e fundamental de que é a raiz de tudo ter tido o homem uma visão de si próprio que não era uma visão em Deus, de se ter considerado o homem como um ser separável e separado de Deus. E o que mais tem perturbado tem sido exactamente que tem surgido a ideia e a prática em gente humilde, despida quase sempre de grande cultura e que parece muitas vezes mesmo um pouco inapta à apreensão do que já se tem conseguido avançar no caminho da explicação geométrica.
Foi este espanto dos racionais e dos cultos que fez supor a muitas filosofias que havia uma forma de conhecimento de carácter senão irracional pelo menos arracional, a que logo se deu o nome de intuitivo; quem parecia não ter partido de Euclides ou parecia não poder chegar a Euclides, mas ao mesmo tempo se adiantava aos caminhantes científicos, era logo por eles colocado na categoria dos intuitivos, como se não devêssemos aqui prosseguir na ideia de que, à boa maneira da filosofia chamada clássica, a intuição é ainda conhecimento racional, só que um conhecimento racional tão seguro e claro que não pode sofrer a menor espécie de dúvida. O que principalmente agravava as coisas era que os tais intuitivos se não limitavam aos exemplos, também clássicos, das propriedades intrínsecas dos triângulos; iam a assuntos muito mais difíceis e às vezes ainda bem longe da alçada dos sábios.
Por outro lado, havia uma lamentável tendência para que a intuição, isto é, uma inteligência mais aguda, mais penetrante e, digamos assim, mais longínqua, se manifestasse principalmente em mulheres e crianças, considerados desde sempre, numa cultura que tem sido de adultos e de homens, como de capacidade inferior; além de tudo, havia a tal inapetência para os caminhos longamente trilhados para a ciência: desprezavam-se os homens das botas de sete léguas porque eles não tinham interesse algum em percorrer, por miúdos centímetros, as estradas dos outros. Creio que uma grande e cómica surpresa aguarda em outra vida os que nesta foram suficientes e sábios: a de descobrir que eram apenas inteligentes, e às vezes mediocremente inteligentes, e que as mulheres, que tantas vezes desprezaram, se elevavam, sem esforço e sem orgulho, às regiões do génio; como vão descobrir que terem enviado seus filhos à escola apenas os atrasou na verdadeira cultura. Foram muito modestas, em todos os tempos, as femininistas quando defenderam que as mulheres eram tão inteligentes quanto os homens, porque na realidade o são mais; foram injustos os educadores quando defenderam que as crianças podem entender o mesmo que os adultos, porque na realidade podem entender mais. E se me pareceu sempre haver mais genial concentração na criança que brinca do que no sábio, não é menos verdade de que o facto de haver nas igrejas menos homens que mulheres me pareceu sempre um grande argumento quanto à verdade do catolicismo.
De qualquer modo, se vai ser um grande caminho para a paz o de, pelo paciente esforço dos menos inteligentes ou pela fulgurante chegada dos mais inteligentes, se entender a História do mundo e por ela a nossa posição no dito mundo, e se vai a Paz consistir fundamentalmente em, pela clarificação geométrica da vida, voltarem ao Pai todos os seus filhos pródigos, a grande força de avanço, o grande motor deste passar dos povos não está verdadeiramente nos que se deslocam, mas nos que de alguma forma vão participando do movimento, para que não falte companhia aos que marcham, mas na realidade já há muito chegaram.
São estes os que são desprezados e não se revoltam, os que obscuramente sabem e ninguém consulta, os que ficam anónimos nas grandes obras a que se ligam nomes alheios, principalmente os que sabem que o dever essencial consiste em, com êxito, com reconhecimento ou sem reconhecimento, com agradecimento ou sem agradecimento, ter fá na importância de sua posição, sobretudo na importância de aguentar calado e alegre a carga que vier, porventura achando-a sempre leve de mais, apesar de todo o sofrimento; os que têm esperança na redenção final do mundo e levarão o seu apagamento ao ponto de não dizerem aos outros o que sempre souberam; os que têm a bastante caridade para transferirem sua própria glória para os actos dos outros.
E se tivéssemos que nomear os que assim procedem; se tivéssemos que dizer quem, porque as estrelas estão dentro de si, se roja na poeira; se tivéssemos que apontar os melhores dos santos – veríamos que estranhamente coincide esta santidade com a radical inteligência de que há pouco falávamos. Temos santos entre nós e não os conhecemos porque nos atrapalha o participarem eles tão intimamente da nossa vida e, sobretudo, o tão frequentemente nos utilizarmos nós deles para a nossa vida, mas, se assim não fosse, já teríamos nós dado há muito tempo a mulheres e crianças o lugar que verdadeiramente merecem; e já teríamos entendido por que motivo tão facilmente Jesus se comovia ante a sua fragilidade e a sua miséria.
Agostinho da Silva – Textos e Ensaios Filosóficos II
*As Aproximações, Lisboa, Guimarães Editores, 1960.
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