domingo, 19 de outubro de 2008

QUINZE PRINCÍPIOS PORTUGUESES - 11

C – FUTUROS
11 – Das Ofertas – De queda em queda se chegou a entrar nos templos apenas para pedir, quando o acto real deveria ter sido sempre o de oferecer; Portugal não tem de entrar em mais sagrado algum dos seu, catedral, mesquita, terreiro ou templo, que em qualquer deles nosso Deus novo e redimido está, sem que sua carga seja de ofertas não de preces, sem que seus carros carreiem frutos de terra e mar, como a melhor das orações e o mais grato dos louvores à glória divina. Outrora se marcou a Terra Prometida porque emanavam de seus campos leite e mel e não há terra nenhuma de Deus aos homens que não possa ter consigo a mesma promessa e a mesma realização.
Mas à terra temos tratado como se escrava fosse, não como a companheira livre que, fecundada, à força de criar liberta e à liberdade lança, no futuro, o ser recente. Perdeu-se a lembrança do tempo em que os homens de Portugal aravam as terras que de ninguém eram e nunca houve tempo que permitisse que as tarefas comuns de manufactura também de todos fossem. Outro mundo inventou e organizou o ser só de um o que de comum era, por ser de Deus; e veio esse mundo e nos conquistou e nos fez, além de miseráveis em nossa própria casa, os que tantas vezes foram a outros povos não como irmãos, como, porém, a escravos. Outro mundo, mais recente mundo, não deu o comum aos homens, mas os homens ao comum. Cabe-nos agora, que teremos Rei, Templo que o coroe e Braços que o sustenham, ir ao mundo que ficou para além desses e lhe ensinar, pelo que tivermos feito, que nem é boa a propriedade de um nem a propriedade de todos, porque ser dono é o começo de todas as perdições. Tudo aí está para que sejamos; sejamos o quê? O ser apenas, sem predicado.
Creio, entre outras verdades, na verdade eterna do Evangelho e estou seguro que nem a exortação nem a promessa foram vãs: um dia poderá o homem, já nem escravo de si mesmo, adorar Deus em espírito e verdade, sem separação, sem trabalho, e sem morte. Não se irá, porém, por nenhum dos dois caminhos que actualmente se trilham, duas formas de capitalismo, e cada vez mais próximas, e cada vez mais visivelmente portadoras de guerra; só a cooperativização dos meios de produção, crédito e transporte poderá fazer o que não fez nem o seu abandono aos caprichos individuais nem a sua apropriação pelo Estado; mas, até a cooperativa, ainda imperfeita, apenas meio; meio, porém, mais da natureza dos fins; melhor, portanto. Mas o que El-Rei quer mesmo é uma economia em que, por não haver escassez, se espedacem as leis e, da que julgam fundamental, só Oferta fique; ou, o que o mesmo é, Homem se colhendo ao seio de Deus.
Agostinho da Silva – Dispersos
* In Espiral, Ano II – n.ºs 8-9, Inverno de 1965.

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